terça-feira, 3 de outubro de 2017

Sobre crocodilos e avestruzes!


Muito tenho pensado sobre a inclusão na rede regular de ensino e, não posso negar, me vejo muitas vezes em encruzilhadas.

Sou professora de uma garota de 13 anos, que nasceu com uma deficiência (órgão): não tem o antebraço e a mão direita. Deve contar com eventuais incapacidades (pessoa), mas não consigo citar nenhuma desvantagem no meio social onde está inserida. Sempre estudou na mesma escola. Jamais foi vitimizada, nem pela família, tampouco por colegas e professores. Ela se “vira” sozinha. Em hipótese alguma os familiares pediram proteção extra ou cuidados especiais. O respeito em sala de aula é unânime e fora dela também. É autônoma, independente, caprichosa, vaidosa, rebelde, ou seja, é uma típica adolescente (e por que não haveria de ser?????).

A partir desse exemplo, e após a leitura do texto: “Sobre crocodilos e avestruzes: falando de diferenças físicas, preconceitos e sua superação” de autoria de Lígia Assumpção Amaral, constatei que ajudamos sim a propagar alguns mitos: o do vitimismo, do coitadismo, da incapacidade total, da compaixão,... Generalizamos, por vezes, a restrição enfrentada por alguns seres. Deixamos de enfatizar do que ela é capaz de fazer. Alguns mecanismos de defesa entram em ação com a intenção  - ou não, num processo inconsciente – de diminuir o “problema” com o qual nos deparamos: negação, compensação, atenuação, simulação,... como se isso fosse capaz de acabar com aquilo.
Aí fica a questão: O que posso fazer?

Bem, creio que o exemplo exposto no final do texto: “Café com leite” elucida muito essa questão. Já se sabe que negar uma situação, não acaba com ela. Ignorá-la também não. Então acredito que o que deve ser feito é oportunizar a essas pessoas o direito de fazer o que podem, o que conseguem, dentro das suas limitações.  A criança/adolescente/adulto com deficiência, não pode ser visto como “menos ou pior”, mas sim como ele é: DIFERENTE. Fará o que pode, o que consegue fazer, o que é capaz. Isolá-lo, torná-lo mero espectador não é inclusão, não com o sentido que tenho internalizado em mim.
Fui uma péssima aluna de Matemática, tenho, ainda hoje, grandes dificuldades com cálculos, expressões numéricas, álgebras,... Sempre fiz o que consegui, o que eu era capaz. Após um determinado tempo, pude escolher o caminho, o qual praticamente abstraiu essa disciplina da minha vida. Agora fico pensando – hipoteticamente – o que teria provocado em mim um isolamento dessas aulas? É claro que este exemplo serve meramente para ilustrar (talvez sem muito nexo) que: cada um deve ter a oportunidade de ressaltar os seus talentos e não ser apontado pelas suas fraquezas, incapacidades.

Penso que devemos refletir sobre isso: não imitar o avestruz, enfiando a cabeça debaixo da terra a fim de não encarar a situação, mas sim enfrentá-la e buscar o melhor meio de resolvê-la. Como?  Incluindo, ressaltando as habilidades, agindo com respeito e proporcionando a todas as pessoas, os mesmos direitos, a garantia de uma vida digna. 

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